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Sexta-feira, Dezembro 31, 2004 Post de ano novo
É, dias de muito trabalho esses que passaram. Acho que emendei uns 13 dias só trabalhando, com algumas festas, mas sem folga nenhuma no trabalho. Agora, terei de 3 dias de dispensa e espero aproveitar e usar muitas drogas(hehehe). Teve uma reunião lá na band e eu tava viajando, olhando pela janela, daí meu chefe chamou minha atenção e eu falei que tava disperso porque tinha usado muitas drogas na noite anterior. E pior que ficou um clima meio estranho até eu falar que era brincadeira, só um ou dois tinham rido, hehehe.
Eu também ando hesitante quanto a beber quantidades exageradas de ceva. Tava me olhando no espelho ontem e reparei numa pequena pança, que me assustou. Lembrei dos meus colegas de trabalho e tios, com o panção de chopp. Na real é um lance meio genético e inevitável, mas vou tentar diminuir as quantidades para não chegar aos 24 anos com o panção em evidência. Tem um cara lá na redação que tem 29 anos e panceps de 50. É um lance sobre-humano, a desenvoltura e comprimento da pança. Quando ele chega rola até aquela diferença das corridas de carros rápidos, centésimos entre a pança e a cabeça. Prefiro ter um corpo unitário, que mesmo sendo composto de membros, se torne um quando ultrapasso uma linha.
Por fim, desejo a todos um ótimo 2005, bom pra caralho mesmo. Eu até tentei individualizar os votos através do orkut, mas é cansativo. Apenas pelo fato de você estar lendo isso, fique sabendo que é especial e considere-se felicitado em dobro. Beijos e abraços, Até ano que vem.
postado por: tenfootpole 12:25 PM
Fala aí.
Segunda-feira, Dezembro 20, 2004 Eu estava com uma idéia interessante para uma bonita fábula pré-natalina, mas acabei esquecendo. Sério, eu ando esquecendo de tudo ultimamente. Também ando tomando ceva durante a semana e me disseram que isso é coisa de velho. Enfim, juntando as duas coisas temos dois indícios de velhice precoce. E aí eu me pergunto, o que foi que causou ou leva a essa conclusão? Quando o cara tem uns 50 anos e tá todo enrugado, ficam dizendo que ele trabalhou demais, não pensou em se auto-preservar. Também dizem que dedos calejados significam muito videogame, punheta, algum tipo de esforço físico ou todos juntos. Será que um escritor que se isola do mundo, daqueles tipo traça de biblioteca, tem feições mais envelhecidas ou dedos calejados?
Se eu não vivesse em Porto Alegre e sim numa montanha bem isolada - como se fosse um monge - e voltasse para cá depois de alguns anos de isolamento e fizesse a barba, teria uma cara mais jovem do que se tivesse vivido aqui durante esse tempo todo? Eu andei dando uma estudada em alguns princípios budistas e pensando nessa história toda de acabar com o sofrimento. Não me considero um cara sofrido. Acho até que sou bem-humorado considerado o padrão de humor vigente. Todos tão estressados e preocupados com as consequências, incapazes de ficar sós sem ter um motivo para isso. Até onde vai o nosso desejo de ocupação e movimentação, por que odiamos a solidão (rima desproposital, mas estou sem vontade de reescrever)?
Mas voltando a velhice, a única coisa que me lembro bem são os convidados do programa que produzo na rádio. Acho que trabalho não se deve levar para casa, embora quem trabalha saiba que isso é impossível. Por uma vida mais tranquila no próximo mês, e viva o ócio.
postado por: tenfootpole 11:40 PM
Fala aí.
Quinta-feira, Dezembro 16, 2004 Tudo tem um fim
Já há alguns dias essa idéia não saía da minha cabeça. Por um lado, queria um pouco de descanso, folga, chega de trabalhar como um escravo. Pelo outro, uma promessa de ascenção na empresa era ventilada, e parecia atraente. Mas hoje, essa promessa foi retirada. Não me senti traído, pois enxerguei a oportunidade aos poucos indo para outras mãos. No trabalho, se ganha e se perde. A BAND me perdeu. E eu, vou perder 250 reais a partir de janeiro.
postado por: tenfootpole 8:51 PM
Fala aí.
Terça-feira, Dezembro 14, 2004 Concórdia do Oeste
O tal Roberto era conhecido entre a vizinhança como um cara de pensamentos fortes mas muito triviais. Quando foi condecorado com uma medalha pelo exército, todos se perguntaram o porquê. A Dona Julieta, mãe do herói, explicava que ele havia realizado um ato de extrema coragem, mas era incapaz de lembrar com exatidão do feito do filho. O pai de Roberto, Adão, preferia omitir-se de qualquer explicação, pois não queria se vangloriar de nada. Ao passo que a condecoração de Roberto se tornou um verdadeiro mistério perante a vizinhança. E a única pessoa capaz de desvendar esse mistério era o próprio Roberto, que insistia em não voltar para sua terra natal. Começaram a circular boatos de que o menino voltaria à terra amada para as comemorações de São Abelardo, patrono rural da fazenda Concórdia do Oeste. Os eventos deste período atraiam turistas de todas cidades vizinhas, e Roberto era indicado como atração para essa edição.
O promotor das festas e prefeito da cidade, Idalmo Fagundes, tratou de imbuir-se no esforço de contatar o premiado. Os pais não possuiam qualquer referência e por isso, seu Idalmo teve de viajar 200 quilômetros em sua Brasília até Firmino Alfonso, município localizado envolto por florestas. Lá se situava a companhia rural do exército, onde o viajante incisivo conseguiu o telefone de Roberto em São Gonçalo dos Padres, cidade distante pelo menos 700 quilômetros. tratou de ligar e convidar o garoto, que reagiu com surpresa e orgulho pelo convite, aceitando-o prontamente. Pela precariedade da ligação, Idalmo não conseguiu esclarecer o motivo da condecoração dada ao milico. Mas isso era o que menos importava, o relevante era a confirmação da presença.
E havia chegado o grande dia. As moças colocaram suas melhores roupas e os rapazes deixaram por um dia as botas surradas e calçaram sapatos lustrosos e bonitos. As danças típicas abriram as comemorações, para delírio dos moços, que deixaram a elegância de seus trajes de lado e despejaram doses maciças de taradice vocabular. As moças honradas enrubesceram, embora a satisfação fosse latente na cara de cada uma delas. Até mesmo as solteironas de mais de quarenta anos, consideradas caso perdido pelas velhocas fofoqueiras, sorriram vaidosas e esperançosas com o assédio.
Depois disso começaram as competições masculinas. O salão central tornou-se um verdadeiro antro da jogatina, com competições de cartas, acrobacias e até mesmo queda de braço. Alguns mais reclusos preferiram apenas observar os jogos, mas ninguém abandonou o salão nem sequer por um momento. Era o grande dia, de muitas atividades, muitas felicidades, algumas discussões mas nada que desvanecesse o clima de alegria. E o melhor ainda estava por vir.
O condecorado Roberto ainda não havia ingressado no salao e a expectativa aumentava. A curiosidade começou a aflorar desembestadamente dos habitantes. Em dado momento, um entorpecido padre conhecido como Chapéu, roubou o microfone do prefeito e improvisou um cântico de boas vindas a ser cantado quando da entrada de Roberto. Não foi bem recebido, pois envolveu palavras consideradas blasfêmicas e impróprias, especialmente aos convivas de terceira idade.
Eis que irrompe afobado - com uma carta na mão - o mensageiro Palhinha, e pede a palavra ao prefeito para ler uma carta de Roberto. Ao dar-se o silêncio ele inicia:
"Caríssimos irmãos e irmãs de Concórdia do oeste. Por meio desta, tento agradecer a atenção e devoção demonstrada por todos neste dia. Estive tanto tempo fora e confesso que meu coração dói e chora ao relembrar de cada um de vocês. Tive momentos incríveis no exército, mas nada se compara ao calor humano e carinho de vocês, irmãos. Conversei com o prefeito Idalmo e aceitei o convite orgulhosamente e quem sabe um pouco...ataboalhadamente. Explico-lhes por que:
1 - Não possuo um tostão furado no bolso.
2 - Minha mãe é surda e incapaz de diferenciar intimação de condecoração.
3 - até pelo fato de eu ter sido expulso do exército há cinco meses, por mau comportamento.
4 - Não pretendo mentir para nenhum de vocês e admito que estou sendo procurado pela polícia, o que tornaria minha viagem um pouco arriscada.
5 - Tentei falar tudo isso ao prefeito, mas a ligação caiu.
Logo meus caros, vêem que não sou tão herói assim. Espero que tenham compreendido e aceitem minha ausência.
Abraços e beijos, Robertinho."
Essa altura, a festa já não tinha mais o mesmo sentido. Alguns rapazes que haviam interrompido jogos nem voltaram a praticá-os, tamanho o desânimo. Solteironas quarentonas voltaram a seus esconderijos e o fuzuê se tornou um deserto repleto de sujeira. Uma desinformada faxineira entrou no local e perguntou ao porteiro. " Ué, todos já foram embora. Mas por quê?". E ele respondeu: "Se nós tivéssemos o mínimo de humildade veríamos que aqui não nascem heróis, apenas abostados."
E as luzes se apagaram em Concórdia do Oeste.
postado por: tenfootpole 12:07 AM
Fala aí.
Segunda-feira, Dezembro 13, 2004 Sim, estou lendo kerouac.
postado por: tenfootpole 11:22 PM
Fala aí.
AMBIENTE
Eu quero sentar em um lugar calmo, sem qualquer ruído ou distração, e elogiar o verde das árvores. Comigo, um livro do Kerouac, que folheio descompromissadamente sem qualquer pressa para acabá-lo. Enquanto escalam montanhas nas páginas, eu observo os pássaros e flores luzidias ao meu redor. Agradeço pela capacidade do vento de propiciar vibrações suaves e sons meigos. Eventualmente, um galho mais desgastado desprende-se lentamente de sua mãe, resultando em um 'créqui' tímido e discreto.
Então decido deixar Kerouac para mais tarde, pois tenho todo tempo do mundo para ele. O ambiente rústico e bucólico não combina com a agressividade e velocidade do Hardcore Californiano, mas nem tudo se encaixa como Beethoven. E debaixo da bela figueira surgem melodias energizantes e rejuvenescentes. A mesma pessoa que envelheceu dez anos em um parece ter perido dez em 2 minutos.
postado por: tenfootpole 11:19 PM
Fala aí.
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