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Se você me pedir para falar um pouco sobre como sou e o que faço, provavelmente não será interessante. Esse site é 99% fictício, e o 1% restante pode ou não ser verdade.

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Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

A Peste

Impossível realizar a leitura de ¿A Peste¿, de Albert Camus, sem sentir-se esgotado entrementes. Porém, essa sensação vem acompanhada de um sentimento mais belo e menos negativo: esperança. Quando escreveu a obra, Camus fazia uma alusão à segunda guerra mundial, ao nazismo e seus campos de concentração. Aqueles pontos de tortura e isolamento são substituídos por uma cidade inteira, devastada pela peste. Em vez da coerção por raça, seus habitantes estão encarcerados pela doença. Da mesma forma que o Nazismo se impunha pela força bruta e pelo controle meticuloso de um grande líder, impossibilitando reações dos oprimidos, a peste opera gradativa e ascendente, obrigando que o prefeito feche o povo na desgraça. O político não é o tirano, neste caso, e sim a peste. Ele apenas se vê obrigado a proibir que doentes abandonem o local e proliferem a desgraça. Da mesma forma que Hitler desejava extirpar os judeus da Alemanha, a peste alveja o povo da cidade argelina.

Por força do autor, é indispensável relacionar o pensamento filosófico de Camus à história que nos é contada. O absurdo, tão abordado em toda a sua obra, pode ser visto com facilidade exemplar em uma série de desenlaces. Inicialmente, de forma clara e inequívoca, a própria doença consiste no maior e mais visível absurdo. Para Camus, os absurdos estão sempre presentes e aumentam à medida que buscamos de modo mais intenso a felicidade. Uma população dizimada pelo absurdo vê-se em confronto com suas próprias mazelas. O jornalista separado da mulher recebe a oportunidade de fugir e reencontrá-la. No entanto, desiste. O homem recebe a chance de fugir do absurdo, mas decide permanecer, pois está em sua natureza submeter-se a ele para ter felicidade. Poderia, muito bem, sair da cidade e reencontrar o seu amor. Estaria aí a felicidade? Para Camus, não, pois é impossível gozar a felicidade sem confrontar o absurdo. É inexorável a sua manifestação, pois é ela que constrói o ciclo inevitável que compõe a vida.

Sobre a trama em si, é narrada por um médico, o doutor Rieux (o narrador é revelado apenas no fim, mas não acarretará prejuízo ao futuro leitor sabê-lo de antemão). Possui quatro ou cinco personagens secundários, contando as desventuras, ilusões e esperanças que se abatem em uma cidade assolada pela peste bubônica. Sobre ¿A Peste¿ e o futuro da humanidade, dizia Camus à Folha da Noite, em 1949: ¿Sim. Creio muito na humanidade - creio nos homens - mas com uma crença um tanto relativa. Nesse sentido, aliás, escrevi "La Peste" que penso não ser uma expressão desalentada sobre o futuro¿.

E, definitivamente, não é, mestre Camus. Como você mesmo apregoou: há esperança para aqueles que sabem e querem conviver e confrontar o absurdo.

dito por: Gustavo 4:31 PM Diga-me. Quinta-feira, Fevereiro 15, 2007

Tênis de mesa na Vila Sandoval



Já era o segundo dia apenas de derrotas, e Jânio começou a ficar incomodado. Na tarde anterior, havia disputado três jogos e perdido todos. Nas férias, o tênis de mesa assumia uma importância enorme na vida daqueles oito adolescentes. Como alguns não tinham grana para ir à praia, aqueles que tinham, solidários, permaneciam na capital. E as tardes eram idênticas. Os garotos promoviam animados torneios, compostos por dois grupos de quatro integrantes, no sistema todos contra todos. Classificavam-se os dois primeiros de cada chave, que enfrentavam-se nas semifinais.

Jânio perdera as três partidas na quarta-feira e havia acordado com um desafio insistente na cabeça: ganhar o torneio de quinta. No entanto, o começo havia sido desanimador, com duas derrotas por 2 sets a 1. Thiaguinho havia garantido sua classificação com duas vitórias contra Pelé e Jânio, respectivamente. Pelé superou Adonis, que vencera Jânio no jogo anterior. Para se classificar, Jânio precisava bater Pelé por 2 a 0 e torcer por mais uma vitória de Thiaguinho.

A disputa entre Thiago e Adonis foi equilibrada, mas favoreceu Jânio, que continuou com chances de classificação. Agora, ele precisava passar por Pelé e, indispensavelmente, por uma diferença de dois sets. O jogo começou nervoso, com muitos erros de ambas as partes. Para Pelé, uma vitória simples bastava, mas ele não conseguia encaixar as jogadas. Jânio era conhecido pela força de sua batida. Porém, ela estava defasada e parecia previsível aos olhos dos demais competidores. Pelé, no entanto, tinha um jogo mais cadenciado, cuja grande arma era a regularidade e precisão. Ele se impôs no princípio da disputa, abrindo quatro pontos de vantagem rapidamente. O placar registrava 12 a 8 quando Jânio fulminou o adversário com três pancadas consecutivas. 12 a 11. Pelé ainda abriu mais dois pontos, mas a partida parecia pender para Jânio, que virou o jogo para 18 a 15 e fechou o set.

Pelé esbravejou e arremessou a raquete longe, o que culminava em uma punição de 5 pontos no set posterior. Nervoso, ele definitivamente havia perdido a compostura. Ao atingir a metade do set, que marcava 9 a 4 para Jânio, Pelé discutiu com Thiaguinho, que assistia à partida e fazia brincadeiras com a imprecisão de suas jogadas. Depois de alguns minutos de discussão, a partida recomeçou, e Jânio a fechou rapidamente em 18 a 09.

Com isso, se creditaram às semifinais Thiago, que enfrentaria Tales, e Jânio, que teria pela frente Adão. Thiago ¿ invicto ¿ passou com facilidade por Tales. Jânio, por sua vez, estava mais confiante e também teve tranqüilidade para derrotar Adão, que havia sido o ganhador do torneio de quarta-feira. A final prometia ser emocionante. De um lado, o emergente Jânio, que começara mal, mas vinha de duas vitórias avassaladoras. Do outro, o invicto Thiaguinho, cujos golpes rápidos e calculados desnortearam todos os adversários até então. Adão, que até o fim desse jogo ainda gozava do prestígio de detentor do título, definiu: ¿é o jogo da velocidade contra a força¿.

O primeiro lance da final deu uma idéia de como seria a disputa. O saque colocado de Thiaguinho foi respondido com uma pancada obliqua de Jânio. Mas a velocidade do jogador propiciou uma defesa extraordinária, que aliou-se a um pouco de sorte, pois a bola resvalou na rede e tirou Jânio da jogada. A primeira metade da partida foi repleta de lances semelhantes, levando à loucura os demais competidores. Com exceção de Pelé, que ainda não aceitara a desclassificação, os outros participantes vibravam com a partida e resignavam-se com a qualidade demonstrada pelos dois finalistas. O placar era 11 a 11. Em nenhum momento havia sido testemunhada uma diferença superior a dois pontos entre eles.

Thiaguinho, contudo, começava a cansar e, na continuação da partida, sofreu uma série significativa de 4 pontos seguidos. A pontaria dos foguetes de Jânio não falhava. Houve um momento que o próprio Jânio impressionou-se com a sua competência: ¿nossa, eu não erro mais!¿. O fim parecia iminente quando Jânio fechou o primeiro set e abriu uma diferença de 9 pontos no segundo. Porém, a sorte subitamente mudou de lado. Em um de seus golpes de direita, Jânio sentiu uma dor no pulso, que começou a atrapalhar as suas rebatidas. De 15 a 6, a diferença caiu para 16 a 14. O jogo era dramático, e os espectadores estavam em polvorosa. 16 a 15. 16 a 16. 17 a 16. Match point. 17 a 17. E assim prosseguiu até o 27º ponto de Thiaguinho, que garantiu a vitória por 27 a 25 e empatou a disputa em 1 a 1.

O último set seria, com certeza, de superação. Thiaguinho não tinha mais forças para exercer suas incríveis buscadas. Jânio, por sua vez, estava com o pulso seriamente debilitado, impedindo os golpes fortes e precisos de seus melhores momentos. O jogo começou nervoso e lento. Os dois competidores discutiam consigo mesmos após cada erro. Apesar da inconsistência das jogadas, a platéia continuava inebriada. A equiparação das jogadas era visível no placar: 10 a 10. De repente, sucedeu-se o acontecimento que determinaria o rumo da partida. Jânio rebateu mal uma bola, que flutuou lentamente próximo à rede, se apresentando para o corte de Thiaguinho. Porém, as pernas do beneficiado fraquejaram, e ele conseguiu apenas encostar na bolinha, devolvendo-a para o controle de Jânio, que bateu forte no fundo da quadra e provocou uma queda de Thiago.

Após esse lance, Thiaguinho permaneceu alguns segundos jogado ao chão. Quando levantou-se, respirou com indignação e deu um grito: ¿vamoooooooo!¿. Adonis e Adão se empolgaram e ovacionaram o jogador: ¿Thiago!Thiago!Thiago!¿. O jogo recomeçou com um novo ânimo da parte de Thiago, que precisava reverter uma desvantagem de dois pontos: 15 a 13. Ele encaixou três jogadas rápidas e virou a partida para 16 a 15. Jânio, então, se enfureceu com a virada, atacando com força em duas oportunidades. 17 a 16 para Jânio: match point. Antes de sacar, respirou fundo. Thiago estava concentrado, com os olhos vidrados na bolinha. Então, Jânio apoderou-se de uma genialidade impressionante. Ciente de que seus saques priorizavam sempre a força, e os adversários esperavam isso, ele decidiu mudar a estratégia. Sacou curto, o que em uma circunstância normal seria suicídio contra um jogador rápido como Thiago. No entanto, a jogada surpreendeu o adversário, que esmerou-se para alcançá-la e deixou-a à feição para Jânio vencer a partida e conquistar o título.

Emoção na Vila Sandoval. Adão, Adonis, Pelé, Tales, Cabra e Caudilho ergueram Jânio, o grande vencedor do dia. Em pensar que se tratava de apenas mais um dos campeonatos diários na Vila Sandoval...

dito por: Gustavo 4:16 PM Diga-me. Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

Troca de óleo

Na sexta-feira, antes de ir para Atlântida, fui a um posto de combustíveis para abastecer o carro e realizar uma troca de óleo, pois a kilometragem percorrida já ultrapassara significativamente a indicada pelo adesivo colado ao vidro dianteiro. Eis que saio da agência e, percorrendo uma avenida na zona norte de Porto Alegre, decido realizar ali mesmo o serviço para não ter que fazê-lo à noite, quando pretendia sair de casa rumo ao litoral.

Sou atendido por um funcionário aparentemente solícito que informa o valor da troca e o tempo necessário para realizá-la. Decido, então, realizar o serviço. Acabo sendo surpreendido por uma frase do cara: ¿Quer fazer o serviço? Ótimo. Só peço que você aguarde um pouco, pois meu expediente encerrou e preciso ligar ao meu chefe e receber a autorização para realizar a troca como hora extra¿.

Achei estranho o cara me dizer isso, mas ficou ainda mais quando ouvi, discretamente, a conversa dele com o superior. Em tom de voz alto, ele avisava que não faria mais hora extra e que lhe era devido respeito. Também pesquei uma ameaça: ¿se quiser me demitir, tudo bem¿. Confesso que foi um diálogo ríspido. Até mesmo para quem não ouvia o interlocutor como no meu caso, dava para perceber que o bicho estava pegando.

Depois de encerrada a ligação, o funcionário se desculpou, educadamente, e disse que não poderia realizar o serviço, pois não havia recebido autorização. Pediu que eu voltasse no sábado. Respondi que não teria como, pois estaria fora da cidade. Ele retorquiu que eu retornasse na segunda-feira e realizasse o serviço ali, pois não faria diferença a quantidade de kilômetros que eu acrescentaria ao marcador no final de semana. Obviamente, fiz a troca de óleo em outro posto, na mesma avenida. Em 40 minutos me livrei da tarefa e fui extremamente bem atendido.

dito por: Gustavo 5:00 PM Diga-me. Sexta-feira, Fevereiro 09, 2007

Oh, shit

Veja bem, estou preparando textos para outro blog, e a minha inspiração não anda tão grande a ponto de refletir sobre assuntos do nosso cotidiano e escrever algo que não seja as abobrinhas fictícias que empilho por aqui. Pensei em criar mais um desses contos curtíssimos e, infelizmente, nem isso fui capaz de fazer. O que sobra? Colar notícias? Linkar? Publicar fotos, vídeos ou ilustrações? Nenhuma dessas hipóteses me instigou. Prometo mais inspiração na próxima semana, quando o sono passar (e se passar).

dito por: Gustavo 4:29 PM Diga-me. Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

Violência e Política

Os arruaceiros avançavam determinados em direção ao prefeito. Depois de derrubarem quatro ou cinco seguranças, restavam apenas mais dois. Um deles era alto, magro e possuía um vasto bigode preto. O outro era baixo e gordinho, com orelhas pontudas destacando-se na cabeça raspada.

Os manifestantes eram mais de 20 e estavam furiosos. Queriam alcançar o político, que tentava correr, mas era atrapalhado por pelo menos 50 quilos a mais que o ideal. Seus dois protetores estavam parados, aguardando o inevitável confronto com a massa. Ao redor deles, alguns curiosos assistiam à cena, indiferentes ao que estava por acontecer. O cenário era uma praça. A data, tanto faz. O prefeito apreciava passeios por esse local, mas as denúncias de corrupção haviam tornado a atividade mais rara nos últimos meses.

Hoje, porém, ele havia acordado disposto a realizar um passeio matinal e convocou uma manada de seguranças para protegê-lo. O que ele não esperava era o encontro com a fúria do povo, diluída em um grupo de atletas amadores, que se alongavam e corriam pela praça.

Os dois seguranças restantes, neste momento, já estavam prestes a serem esmagados pelos manifestantes. O baixinho olhou para o mais alto e fez um gesto para que saíssem do caminho ¿ sugestão que foi prontamente atendida. Restavam apenas o prefeito e a multidão. Quando deu-se conta da situação desfavorável em que se encontrava, o político esbravejou contra seus guardiões:

- Malditos! Preciso de proteção! Para que vocês são pagos, desgraçados!?¿

A indagação serviu mais como desabafo, pois todos estavam distantes ou medrosos demais para protegerem o prefeito. Silenciosamente, os revoltosos agrediram o político com chutes e socos. Deixaram a vítima estendida na areia e fugiram. O prefeito teve uma série de lesões, mas voltou ao gabinete e continua roubando até hoje.

dito por: Gustavo 3:06 PM Diga-me. Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007

Impostos

Véspera de feriado, a mente já está no litoral, mas sempre há algo a ser feito em Porto Alegre. No meu caso, as agências bancárias costumam se impor nesses momentos. São aquelas contas que você adiou o pagamento o máximo que pôde, pois odeia freqüentar bancos e, logicamente, não gosta de pagar impostos. Estou para conhecer alguém que, ciente da necessidade de despender certa quantia para algum pagamento, sente-se confortável por estar contribuindo para o crescimento do país ao pagar impostos. Estava conversando com alguns colegas sobre a natureza corrupta do povo brasileiro. Concluí que somos, por natureza, vulneráveis à corrupção.

O povo brasileiro é pobre e luta diariamente para garantir o seu próprio sustento, sem direito a regalias. Faço parte de uma minoria afortunada, que freqüentou boas escolas e teve comida na mesa e toalhas limpas no banheiro. Por isso, possuo uma formação eticamente favorável, tornando-me um indivíduo de boa índole. Incorruptível? Lógico que não. Assim como aqueles que não tem nada, possuo um limite de honestidade. Até que ponto seus valores se manifestam? Qual é o seu limite de tolerância à fome, ao frio e à miséria? Experimente ficar sem dinheiro por uma semana, à mercê da bondade alheia para garantir um pedaço de pão. Acredite, meu amigo, você roubará.

Isso porque os impostos que pagamos não garantem nada. Se, por ventura, perdemos o emprego ou outras formas de sustento, acabamos, mais cedo ou mais tarde, nas ruas. A miséria está a um passo, sempre. Em países mais desenvolvidos, um entregador de pizza possui uma vida confortável. Luxuosa, certamente, não, mas ele pode viajar nas férias e ir ao cinema semanalmente. No nosso glorioso terceiro mundo, o mesmo entregador de pizza subsiste. Quem não tem formação ou motivação, está fadado ao desalento. Logo, o brasileiro não gosta de pagar impostos. Ele não sabe a sua serventia.

dito por: Gustavo 2:48 PM Diga-me.

copyright fernando satt corrêa